João Trevisan

"Das noites uma livre sensação" link para acessar a exposição em 3D

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O Ritmo da Noite
a partir de “Das noites uma livre sensação”, mostra individual de João Trevisan

“If all of the people who go to the museums could just feel an earthquake.
Not to mention the sky and the ocean.
But it is in the unpredictable disasters that the highest forms are realized.”
Walter de Maria, On the Importance of Natural Disasters

“We have different mountains & rivers, but we share the same sun, moon, & sky.”
poema chinês

Filiado às ideias da arte da terra, do minimalismo, e da arte conceitual, o artista estadunidense Walter de Maria, despontou no final de seu texto On the Importance of Natural Disasters (1960) que é nos disastres que as maiores formas são realizadas. De certo, ao lembrar de trabalhos paradigmáticos como o “Earth Room” (1968), podemos afirmar que o desejo do artista está localizado na realização formal de uma determinada situação – mesmo que a escala pudesse, à primeira vista, soar impossível ou impraticável.

Atento para sua menção ao céu e ao oceano na frase seguinte – sentença menos dramática ou espetacular, que deve ser considerada de extrema importância. Tanto na sentença de De Maria, quanto no poema chinês, há uma sugestão de paisagem. Naquilo que apresenta-se sobre nós – a imensidão do céu –, quanto naquilo que marca nossa mirada ao horizonte, onde nossa vista alcança – o também imenso oceano. A partir desta linha, horizontal, organizam-se a ideia de paisagem e a leitura ocidental. Num exercício de horizontalidade, por meio da justaposição de palavras, organiza-se qualquer texto. Se na leitura este exercício de ordenação é corriqueiro e óbvio, no entrecruzamento dos trabalhos de João Trevisan esta é também uma verdade. Na instalação apresentada, nas pinturas expostas e na combinação dos objetos reside uma ideia de arranjo sustentada, com todo seu peso, na linha horizontal.

Faz-se responsável, no entanto, um preâmbulo: o artista relaciona as formas pintadas por ele a suas caminhadas no entorno das linhas ferroviárias – um exercício de deambulação contínuo e linear, marcado pela ideia de hábito, repetição e, em última instância, ritmo. Sensível a esta afirmação do criador, ouso contrapô-la. Não é um motivo, uma vontade de representação, que move o pintor. Se apresentam-se nas pinturas, como uma possibilidade de leitura por aquele que faz flanar seus olhos na superfície de uma tela exposta, estão mais marcadas ainda na fala do artista: as razões pelas quais João Trevisan trabalha as soturnas matizes que colorem esta mostra não operam num desejo de representação da forma geométrica: as formas na pintura de Trevisan carregam um ethos daquele que pinta pelo próprio desejo de pintar.

Em última instância, este texto objetiva investigar o desejo do artista. Aventar hipóteses sobre o que move João Trevisan – quais são suas intenções, com o que se preocupa e as razões pelas quais se envolve em processos materiais para dar conta de questões conceituais que lhe são caras, importantes – apresenta-se como uma possível estratégia. Tal qual nas pinturas da série Intervalos, apresentam-se aqui, enumeradas, justapostas e enfileiradas hipóteses e possíveis relações do trabalho do artista com outros trabalhos e poéticas na história da arte – relações tão legítimas, quanto fantasiosas. As hipóteses objetivam ser lidas no intento de provocar o espectador a investigar ritmo a partir da repetição formal dos paralelepípedos representados pelo artista; quais desventuras há por trás do seu gozo com a escala de suas instalações; como Trevisan opera a ideia de posição em sua investigação formal; e, o último lado deste quadrado: do humor, da erótica e da sugestão de tamanhos que apresentam-se nas suas escolhas de títulos.

  1. Ritmo

A ideia de ritmo não carece ser explicada ao espectador. Quiçá é ele, o ritmo, a causa da livre sensação que reside no título da mostra. Por campos cromáticos soturnos, que sugerem o fim do dia, o chegar da noite e o adentrar na madrugada, as pinturas são sombrias – com aura e pouca luz. “Ao caminhar à sua volta, percebe-se que a forma preenchida pela cor desaparece e volta a aparecer num jogo óptico, delicado e firme.” Por toda a história da pintura, a fruição do espectador no espaço em que a obra é apresentada gerou percepções singulares. Trevisa, no entanto, intenciona este jogo de ilusão. Filia-se então às investigações fundamentais do neoconcretismo de Willys de Castro. É na baila dos “Objetos Ativos” de Willys que surgem as “Madeirinhas” de Trevisan. Uma das características principais dos “Objetos ativos” é que operam de modo similar à poesia neoconcreta: não é possível definir com muitas certezas se ali opera primordialmente uma investigação da linguagem ou da forma. Assim como não é possível afirmar se Trevisan objetiva em “Sequência de coisas' lançar mão da escultura ou da pintura, senão de ambos.

  1. Escala

"Essas madeiras tomam a característica de corpos”, afirma o artista sobre a instalação que inaugura a mostra. O material utilizado é cole

Date2020 ForGaleria Central – SP