João Trevisan

Da repetição ao silêncio

www.foro.space/0120

Da repetição ao silêncio, de João Trevisan

É clássica a fórmula da crítica de arte de unir trabalho e vida do artista, desde tempos vasarianos. O formalismo deixou-a de lado, pois havia uma necessidade de se preservar a arte em períodos de perseguição ideológica. Esse mesmo formalismo nos deixou instrumentos de leitura importantes, particularmente naquilo que nos ensinou sobre a visualidade da arte abstrata e como descrevê-la.
Contemporaneamente, essa associação vem se transformando, uma vez que há um renovado interesse por compreender a obra do artista levando em consideração não apenas a visualidade de seu trabalho, mas os processos, inclusive pessoais, que contribuíram para sua poética. Nesse sentido, tem-se resgatado os escritos dos próprios artistas não apenas sobre seus trabalhos, mas sobre seu pensamento estético, visando compreender mais amplamente quais os caminhos que escolheram para desenvolver seus processos.
Seria fácil olhar para a escultura, a pintura e os objetos de parede de João Trevisan e lê-los a partir de um diálogo evidente com o minimalismo, inclusive nos contornos que ganhou em suas ressonâncias brasileiras, entre o Neoconcretismo e o pós-minimalismo dos anos 1990. Entretanto, acompanhando o trabalho de Trevisan e o desenvolvimento de seu processo como artista há um tempo, não seria possível deixar de mencionar a importância de uma compreensão pessoal do budismo que o artista desenvolveu e que informa seu trabalho diretamente, em termos de procedimento e processo.
Pouco sabe esta curadora sobre a filosofia budista, mas apenas como uma primeira aproximação, já é possível perceber que o trabalho de Trevisan – e ele mesmo – persegue três máximas do ensinamento dessa filosofia: a sabedoria, a conduta ética e a concentração. Esses três elementos parecem evidentes em toda sua produção e são quase que autoexplicáveis em suas performances. Outra palavra que poderia ser incluída aqui seria “resiliência”. Os procedimentos e processos de Trevisan são conduzidos por uma investigação resiliente – das formas, dos materiais e das relações entre estes e a vida que o circunda. Não é gratuito que Trevisan tenha encontrado sua forma elementar de trabalho nos arredores de sua casa, onde passavam trens, no entorno da modernista capital do Brasil. É como se ele penetrasse na cidade apenas quando está disposto a enfrentar o modernismo ostensivo que ela simboliza; durante sua reclusão no ateliê é com um outro modernismo que ele dialoga, um modernismo que se mistura à sua formação autodidata em artes visuais e a experiência do trabalho. Resiliência.
A maneira como Trevisan entende seu processo conversa com a autodisciplina, o silencio, a repetição e uma certa experiência mística da beleza que Agnes Martin deixou registrada em seus escritos. “All artwork is about beauty; all positive work represents it and celebrates it. Beauty is an awareness in the mind. It is a mental and emotional response that we make”. Como era de se esperar, Martin também nutria interesse pelo Budismo, bem como seu amigo Ad Reinhardt, outro expoente da arte abstrata de viés geométrico. Escrevendo sobre a pintura chinesa, Reinhardt admirava-se que fosse “complete, self-contained, absolute, rational, perfect, serene, silente, monumental and universal”. O que parece encantar Reinhardt é essa serenidade tranquila e, ao mesmo tempo, potente dessas pinturas. Como elas se instalam no mundo silenciosamente, mas resilientemente.
Talvez já saibam onde estou querendo chegar. O processo artístico de Trevisan é uma luta silenciosa e resiliente, auto-disciplinada e repleta de pesquisas, práticas experimentais e teóricas. Ele produz projetos, escritos, planejamentos e investigações constantes, que registra em cadernos de capa dura, evidenciando como organiza sua permanência no mundo da arte.
Um elemento de suas esculturas de grande formato – elaborada com dormentes colocados ritmadamente formando um semi-circulo, que montou pela primeira vez na Casa Niemeyer, em Brasília, em 2018 – chama atenção para essa fusão entre seu trabalho e a maneira como resolveu conduzir a própria vida. Segundo ele, o intervalo entre as estruturas é dado pela medida do ato de caminhar. Dizer que o corpo de Trevisan está na sua obra é pouco, ele mesmo está na sua obra. Eu o observava enquanto distribuía as estruturas dessa instalação no terreno irregular do espaço expositivo. Ele contava os passos e sua respiração acompanhava o ritmo desse caminhar. Hoje, parece que o que presenciei foi a meditação andando, como a ensina Thich Nhat Hanh. O mestre Zen compôs um “guia para a paz interior”, certamente visando alcançar nossa limitada compreensão dos preceitos budistas. Numa das páginas, ele escreve:

“Através da porteira deserta,
Cheio de folhas amarelas,
Eu sigo o caminho estreito.
A terra está vermelha como lábios de criança.
De repente
Estou consciente
De cada passo
Que dou”.

Ana Avelar

Date2020 ForGaleria Foro.space – Bogotá – CO